Decifra-me ou te devoro


30/06/2005


Natureza morta (Parte 09)

Francis Bacon/Human Body

Não estava disposto a negar-me uma nova experiência, que para mim parecia interessante, mas naquele momento a coisa se afigurava bem mais séria, bem mais envolvente e ao mesmo tempo rompia todas as barreiras que eu imaginava ainda existirem em mim. Pensava em ir em frente e ao mesmo tempo queria recuar.

Me assustei quando Antonio tentou se aproximar ainda mais e se rompeu o encanto. Sem refletir sobre as conseqüências, decidi me levantar e voltar para a casa. Soltei a mão do rapaz e comecei a caminhar. Ele não disse nada, apenas me acompanhou alguns passos atrás. Quando nos aproximamos ele disse apenas:

- Não pode acontecer sem que você realmente queira. Eu apenas acho que você quer tanto quanto eu.

Nem olhei para trás quando ele disse isso. Já estávamos bastante próximos para que David, que continuava organizando sua parafernália de equipamentos, nos ouvisse.

Quando chegamos à varanda pensei em fazer algum comentário sobre a beleza da noite, mas o olhar que David me lançou me deixou mais desconcertado ainda.

- Algo de errado? - Perguntei, adotando um ar de superioridade, de certa forma afetado. Me arrependi em seguida. David mudou de posição.

- Não. Não há nada de errado. - Disse. - Mas daqui a pouco ficaremos sem energia e imaginei que poderíamos montar um planejamento para amanhã. O senhor Medeiros me falou de alguns locais que eu quero conhecer. Mas podemos deixar para amanhã. É melhor ir deitar agora, estou cansado.

Quando chegávamos ao quarto a luz apagou-se. De repente me vi perdido no meio da escuridão, desorientado. Tentei continuar caminhando em linha reta e esbarrei em uma parede. Antonio me pegou pelo braço.

- Por aqui. - Disse ele, me levando até a porta. Já habituado à falta de luz, entrei no quarto, onde a luz da lua entrava pela janela. Antonio saiu do quarto para fechar a casa. Todos os outros já estavam deitados. David procurou em suas coisas e encontrou uma lanterna, com a qual iluminou o quarto, mas o foco era muito pequeno. Tirou a roupa e preparou-se para dormir. Depois que apagou a lanterna, eu permaneci sentado na cama, na penumbra, sem manifestar qualquer vontade de me mover. David notou, voltou-se e olhou-me, mas não dirigiu para mim a lanterna. Deve ter estranhado minha atitude, mas a única coisa que disse foi:

- Você não vai dormir?

- Eu não tenho sono.

- É um milagre então, porque eu estou muito cansado.

- Normal, nós andamos muito hoje, mas há algo que me incomoda, talvez tenha sido isso que espantou o sono.

David sentou-se na cama, de frente para mim, com os braços fechados sobre as pernas, pensando em alguma coisa para dizer, mas nesse momento vimos uma luz se aproximando no corredor. Antonio entrou com um lampião a querozene e a luz novamente invadiu o quarto. Nós dois olhamos para a porta e por um momento eu agradeci o fato de aquela conversa ter-se encerrado ali. Não suportaria ter que dar algum tipo de explicação sobre o que estava sentindo.

- Eu trouxe o lampião, para o caso de vocês ainda precisarem de luz, mas se lhes incomoda eu posso apagar.

David olhou para mim com uma expressão de quem não havia entendido e eu respondi a Antonio que não, que pelo contrário, a luz seria necessária. Sentei-me na cama de David e começamos a conversar sobre os locais que visitaríamos no dia seguinte, de acordo com as informações que ele tinha ouvido dos moradores. Enquanto falava, Antonio começou a tirar a roupa. Tentei evitar demonstrar qualquer interesse e continuei falando o mais naturalmente possível, olhando diretamente para David mas, de vez em quando, involuntariamente, meus olhos se voltavam para o dorso nu do rapaz. Ele era magro, bem mais magro do que as roupas permitiam imaginar, mas os músculos eram definidos. Aquilo me incomodou. Quando me voltei para David seus olhos estavam presos em mim, como se esperassem uma resposta, mas eu apenas tentei retomar o fio da meada. A cena toda foi muito rápida. Em um momento Antonio já estava enfiado no pijama. Ele sentou-se na cama, que estava ao lado da de David e, com os pés cruzados um sobre o outro, como um daqueles iogues, começou a falar dos lugares que ainda precisávamos conhecer. Ele tinha mais informações para nos dar do que havíamos conseguido reunir durante todo o dia. Antes de nos deitarmos, ficou decidido que no dia seguinbte entraríamos na Gruta do Funil.

(Continua.....)

Escrito por Feutmann às 13h56
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