- Tem um buraco aqui. - Disse David, com seu sotaque carregado.
- E agora? - Perguntei, preocupado.
- Ele caiu lá dentro. Vamos ter que tirá-lo.
Desde o início algo me dizia que aquela história não acabaria bem.
- Consegue nos ouvir? - Perguntei, me aproximando do buraco, com medo de cair na escuridão. O velho gemeu, fazendo sinal que sim. Não conseguíamos vê-lo. Seu lampião estava apagado. - Quebrou alguma coisa? Está muito machucado?
- Não.
David achou uma lanterna em sua mochila e acendeu, iluminando o fundo do poço. O velho estava uns três metros abaixo.
- Precisamos tirá-lo daí. - Disse David.
- Claro que precisamos, mas como?
Antonio também se aproximou do buraco e falou com o velho.
- Será que consegue sair daí?
- Eu num sei, mas vou tentar.
Ouvimos outro barulho e o velho, que tentava escalar a parede do buraco, caiu novamente. Xingou e depois levantou-se.
- É muito liso aqui. Escorrega.
A luz da lanterna começou a ficar fraca e depois apagou-se lentamente. O buraco mergulhou na escuridão novamente.
- Onde está o barbante? - Perguntou Antonio.
- Quebrou. Um rolo tá aqui comigo. A outra ponta eu não sei onde foi parar.
- Tente jogar para mim.
O velho jogou o barbante que tinha nas mãos mas Antonio não conseguiu pegar e o carretel se perdeu. Começamos a procurar, auxiliados apenas pela luz do carboreto. David encontrou a outra ponta do barbante, que estava presa do lado de fora. Puxou com força e quebrou, começando a enrolá-lo.
- E agora, como vamos sair daqui? - Perguntei.
David me olhou sério. - Agora é tarde. Você devia ter pensado nisso antes de eu quebrar. Vamos seguir as velas que ainda estão acesas.
Eu não conseguia ver nenhuma vela à nossa frente.
- Vocês num vão embora e me deixar aqui né? - Gritou o velho lá de baixo. Permanecemos em silêncio e ele começou a desesperar-se. Fazia uns ruídos estranhos. - Ei, cadê vocês?
Comecei a sentir prazer com aquela situação. O velho, que minutos antes queria nos deixar para trás, estava agora provando do seu próprio remédio.
- Ei. . . - Gritou novamente.
- Calma. - Respondeu Antonio. - Nós já vamos tirá-lo daí. Achei. Achei o barbante. Vamos amarrar. - E ele e David amarraram os dois pedaços.
- É muito fino. - Eu disse. - Não vai aguentar o peso.
- Nós vamos dar várias voltas.
Depois de dar as voltas no barbante, jogaram uma ponta para o velho. Ele demorou para achar, no escuro. Depois começou a subir, empurrando-se com as pernas, enquanto puxávamos. Escorregou e bateu com a barriga nas pedras, mas não soltou a corda. Tive vontade de dar uma gargalhada, mas continuei puxando. O velho estava sendo arrastado com a barriga contra a pedra, mas como havia muito musgo, não deveria estar se machucando tanto. Era isso ou ficar ali para sempre. Sua cara apareceu fora do buraco. Estava desfigurado, imundo e quase chorava. Pulou para fora e tentou ficar de pé, mas estava mancando.
- Tem certeza que não machucou nada? - Perguntou Antonio, acendendo novamente o lampião na cabeça do velho.
- Tenho. Vamo embora. - E começou a caminhar na direção contrária a saída.